VIK MUNIZ

Apropriações barrocas, Vik Muniz / Capela da Coleção Ivani e Jorge Yunes (CIJY), São Paulo – Brasil

Rafael Schunk – pesquisador do Núcleo de Arte Sacra da CIJY

Imaginária, a produção mais recente do artista plástico Vik Muniz (São Paulo, 1961), é composta por grandes painéis da série Repro Saints, expostas inicialmente no Espaço Cultural da Fundação Casa Santa Ignez na Gávea, Rio de Janeiro. Nesta edição paulistana realizada em parceria com a Kura, Coleção Ivani e Jorge Yunes e Galeria Nara Roesler, as criações imagéticas de Vik Muniz revisitam pinturas históricas da tradição cristã. No minucioso processo de fotomontagem barroquista, a obra sacra é o resultado final da justaposição de várias camadas policrômicas, signos e histórias. Rasgos, tiras e estilhaços remontam figuras sagradas fracionadas, fluidas, espontâneas, contudo, sem perder um rigor erudito, estético, belo ou religioso; uma saborosa apropriação ou sequestro de obras clássicas revisitadas no universo contemporâneo em consonância com a herança barroca no acervo da Capela da CIJY – artista e coleção perfazem uma contraposição de elementos díspares acumulados no transcorrer de tempos e imagens, complementando-se, fundindo-se.

A retórica barroca envolve o fiel em um mundo de ilusões, agarrando-o pela visão e aguçando os sentidos.

Etimologicamente, o termo barroco designa uma pérola irregular, imperfeita. O termo é sugestivo pois nos remete a algo valioso e deformado, foi isto que a escola artística e literária propôs: fundir elementos contraditórios, respeitando os ideais renascentistas de prazer, valor da razão e beleza, integrando a uma espiritualidade de júbilo medieval, destacando o caráter passageiro da existência. Arte de contrastes, o pormenor se une ao grandioso, assuntos religiosos mesclam-se a pensamentos políticos e humanos. A ânsia de aproveitar a vida se curva perante o caráter efêmero da existência. O barroco chegará assim a formulações extremas: o belo e o grotesco, exorbitância e contenção, claro e escuro, delírios e fantasias, ostentação, êxtase, duplicação, elipse e movimento, – ambiguidades e alegorias que o desespero do homem no período viverá intensamente, resultado das preocupações psicológicas daquela época.                                                                                        

Temáticas emprestadas de repertórios barrocos são recorrentes nas produções contemporâneas sintetizadas em investigações da memória, acumulação e imagem. Tanto no acervo de arte colonial da CIJY quanto na produção sacra de Vik Muniz, as coordenadas da linguagem – de ambos – foram desenvolvidas por meio de categorias expressivas equivalentes embora contendo matérias plásticas distintas: o sensorial, o visual, o persuasivo, o lúdico, o complexo ou a circulação de estampas constituem linhas essenciais comuns na propaganda e assimilação d’alma barroca; ponto de convergência, inflexão e diálogo.

A atemporalidade do barroco na cultura colonial, no modernismo, ou na produção contemporânea de Vik Muniz nos convida a aproximar e afastar, como uma isca num jogo de espreita e sedução. Ao contrário de casos em que a necessidade de uma síntese ou interpretação exige que o observador complete o sentido da obra, nos barroquismos tudo se apresenta numa excessiva armadilha de fantasias: há um sabor perverso pelo engano, o plano parece ter volume e o volume é apenas sombra, madeira ou papel mimetizando falso mármore, folhas rasgadas aparentemente desconexas e que se transformam em faces, objetos, vestimentas e paisagens; é o gozo de iludir o observador, de simples testemunha a fiel cumplicidade.

A Crucificação (a partir de Thomas Eakins, 1880), São Tiago Maior (a partir de Guido Reni, 1638), Santa Inês (a partir de Simon Vouet, 1626), Maria Madalena (a partir de Giovanni Girolamo Savoldo, c. 1535-40), São Jorge e o Dragão (a partir de Gustave Moreau, 1869), São Pedro (a partir de Pompeo Girolamo Batoni, século XVIII), Santo Agostinho (a partir de Philippe de Champaigne, c. 1645-50), Santa Luzia, Virgem de Guadalupe, São Francisco de Assis, São Benedito. Madonas, mártires, religiosos, doutores, guerreiros e patriarcas da igreja povoam o panteão de obras sacras recriadas por Vik Muniz e instaladas nas abóbadas, paredes e altares da Capela da Coleção Ivani e Jorge Yunes; fragmentos de memórias, dialéticas entre passado e modernidade transbordam em um barroco reinventado.     

Vik Muniz, um dos artistas brasileiros mais consagrados no exterior, estabeleceu uma nova linguagem visual a partir de materiais triviais, porém revistos em recortes inusitados e impactantes: imagens esculpidas com terraplanagem (geoglifos), feitas a partir de projeções, enormes pilhas de refugo, açúcar, lixo, calda de chocolate, frutas, vegetações secas ou restos de demolições. O encontro de pintura, escultura, reciclagem, trabalho social, vídeo, coletivo e fotografia entrelaçam as pesquisas estéticas do autor, porém de fluidez compreensão dos espectadores. A acumulação de objetos, imensurável complexidade de minúsculos respingos de matéria orgânica, grãos de areia, têxteis, papéis ou quase incontáveis partículas sobrepostas para formar rostos de personalidades e santos constituem sentimentos neobarrocos que enaltecem referências de tradições desaparecidas expondo-as sob novo fôlego. A obra de Vik Muniz, por fim, se rendeu a uma arrebatadora sedução das curvas e contracurvas.