PINGA: DIÁLOGOS ENTRE ARTE E MODA

Uma diálogo entre PINGA​ (Catharina Johannpeter e Gabriella Paschoal) e KURA by Camila Yunes

KURA: Por que um trabalho de arte aqui na Pinga?

PINGA: ​Acho que tem muito a ver com a desmistificação dessa relação entre obra de arte e roupa.

KURA: ​É um diálogo que existe há bastante tempo, não? Se olharmos em retrospecto, vemos as experimentações do Nelson Leirner com tecidos, os trajes do Flávio de Carvalho, Hélio Oiticica com os Parangolés…

PINGA: ​Isso! O Adriano Costa era designer antes de se tornar artista… Estamos pensando na loja como um espaço livre de preconceitos e que é capaz de abrigar diversas manifestações criativas. Muitos dos artistas da moda com quem gostamos de trabalhar têm um viés artesanal, uma preocupação em resgatar tecidos e modos de produzi-los. São pessoas que prezam pelo acabamento das peças… Nós queremos agregar valor ao que estamos vendendo. A arte tem isso, um valor agregado. É o valor do que ela representa. Nesse momento em que as coisas estão tão divididas, moda de um canto, design em outro, arte em outro, porque não fazer um projeto como esse?

KURA: ​Engraçado, estava pensando que o trabalho de vocês para encontrar essas roupas se assemelha muito a uma curadoria, não?

PINGA: ​Isso está no DNA da nossa loja. Hoje a moda tornou-se uma indústria gigantesca e muito imediatista; as pessoas compram as roupas, usam algumas vezes e logo jogam fora. Nós achamos que este é um momento de transformação e por isso tentamos disponibilizar peças que são atemporais, para resgatar um pouco dessa relação que também temos com a arte: você não compra uma obra à toa, ela tem que ter um significado para você.

KURA:​ Sim, e a sintonia entre vocês é inegável. São olhares muito parecidos e que são baseados em referências que vocês carregaram por uma vida inteira. Isso se reflete nas escolhas e nos caminhos da Pinga.

PINGA: ​Temos nossas ambições para a Pinga. Sabemos que temos que vender para fechar o caixa pois são sete funcionários, um aluguel caro… Mas nossa ideia é maior e vai além de fazer da loja um sucesso financeiro. Queremos agregar valor aos designers, estilistas e artesãos que trabalham conosco, pois sabemos que eles incentivam pequenos artesões, essa mão de obra que está acabando no país. É óbvio que não podemos dar um passo maior do que a perna, mas imaginamos que a Pinga possa crescer e a gente possa trazer essa discussão da mão de obra no Brasil, desse trabalho manual que está sendo esquecido. Temos muitas coisas incríveis no país e que podem ser exportadas e consumidas internamente.

KURA: ​Saber dessas informações sobre os métodos de produção das peças que vocês comercializam muda nossa concepção sobre essas roupas. Trata-se de um processo muito semelhante ao que vivemos quando vemos uma obra e depois descobrimos seu contexto e história.

PINGA:​ Esse é nosso trabalho na PINGA! Fazer as pessoas irem até a loja e lá contarmos as histórias por trás de tudo o que temos.

KURA:​ Por fim, uma última curiosidade: de onde vocês tiraram o nome “Pinga”?

PINGA: ​Há uma ironia no nome da nossa loja. A questão da pinga ser uma bebida popular e nós estarmos vendendo luxo, sabe? Uma loja que só vende coisas diferentes e que se chama pinga. Quando nos reunimos para pensar um nome para a loja, não queríamos algo muito duro. A loja é uma extensão dos nossos desejos e há um desejo de receptividade. Esperamos que a experiência seja sempre calorosa.

Agosto de 2018.

Primeira Edição / TOBIAS PUTRIH
Segunda Edição / YULI YAMAGATA