KURA ENTREVISTA / biarritzzz

por Thais Teotonio

Still do videoclipe B.I.A. – EX@ feat. Mun Há e Deize Tigrona, 2020 / Still do videoclipe M.I.A. – XXXO, 2010

1. Começando pelo começo, como surgiu o nome biarritzzz e como ele se relaciona com biahits e B.I.A?

Meu nome é dado por uma professora de português do ensino fundamental. Ao fazer a chamada, Moniquinha lia os nomes e, chegando no meu, em vez de “Beatriz”, sempre soltava um divertido “biarritz!”. Eu achava engraçado e um dia perguntei o que era isso. Ela me disse que era uma praia na frança. só com 18 anos comecei a usá-lo artisticamente, e desde então me identifico como biarritzzz: com três z’s, imitando uma sonoridade de um choque, ou a visualidade de um raio. Desde alguns anos, porém, passei a utilizar também biahits, que em nossa língua tem a mesma sonoridade. 

Isso porque em 2019 percebo que esse seria meu alter ego para trabalhos sonoro-musicais, a partir da produção de Pátria – biahits feat. Vampiras Veganas (2019), um brega-funk e videoclipe que satiriza situações políticas, que faço com imagens apropriadas da apresentação que fizemos ao vivo num colóquio de filosofia na USP, somadas a linguagem de memes e de produções amadoras de youtube, cultura que visualmente hoje permeia produções presentes em vários outros meios. 

Em 2020, quando Diane Lima me convida para sua curadoria Os Dias Antes da Quebra, para a Pivô Satélite, compartilho com ela a produção independente de um álbum que estava em processo com meu companheiro Henrique Falcão (até então só existiam 10 letras escritas num caderno e um beat no meio do caminho). então lançamos o biahits – EU NÃO SOU AFROFUTURISTA (2020), um álbum sonoro-visual web-specific interativo, de 10 músicas e GIFs, com desenvolvimento web próprio (por Pato Marques), e cujas faixas também circulam individualmente nas plataformas de streaming. 

Uma dessas faixas se tornou o primeiro single do álbum, a B.I.A – EX@ feat. Mun Há e Deize Tigrona, por ter ganhado um videoclipe. O clipe foi feito através de financiamento do Instituto Moreira Salles, a partir do convite de Heloisa Espada no IMS Convida. Foram dois trabalhos financiados ao mesmo tempo, e pela primeira vez em toda minha carreira. 

Em B.I.A. – EX@ feat. Mun Há e Deize Tigrona, assino como B.I.A., a personagem que desenvolvo ao me apropriar da M.I.A., cantora londrino-sri-lankesa (Tamil) que originalmente compôs a música XXXO, a qual satirizo e faço uma releitura, assim como do videoclipe homônimo, de 2010.

2. Você prevê uma continuidade na criação dessas identidades?

Brincar com diferentes personagens tem sido uma solução muito fértil para lidar com o mundo das imagens, da apropriação e do remix no qual estou (ou estamos todes?) inserida. É uma maneira de brincar com o meu corpo, muitas vezes num auto-deboche, e que às vezes vira um deboche à indústria musical, aos circuitos que tendem a definir exatamente com que tipo de linguagem você está lidando (corpo = performance? teatro = teatralidade?), e à própria cultura midiática e suas políticas. posso dizer que nesse lugar de brincar com a autoimagem o trabalho do Samuel Fosso é uma referência que me toca profundamente.

Atualmente tenho trabalhado com outra personagem, A Desencantada, uma cantora de brega-forró-sertanejo que usa uma peruca rosa e é desiludida com esse mundo. penso também em outras personagens, mas estas são ainda embrionárias demais pra falar aqui.

3. Em nossa conversa, você comentou sobre a ideia de resgate e sequestro, conte um pouco mais sobre esses termos e como eles influenciam a sua produção. 

Vivo uma intensa necessidade de resgate a partir do registro do sequestro, registro que está entranhado em tudo que sinto. O sequestro espiritual, o sequestro territorial, o sequestro mental. Esse trabalho (EU NÃO SOU AFROFUTURISTA) é um resgate das histórias de minha avó, sobre minha bisa, sobre minha tataravó, e sobre ela mesma, em Miraíma, Ceará. é também sobre o legado de meu avô, um grande artista que viveu nessa terra e no Poço da Onça, também Ceará. Está em meus pés e mãos e em todo o meu corpo a volta, não para estar lá, mas para saber um pouco do tudo que se perdeu. Isso está nos elementos da capa, com simbologias que representam essas histórias, registros orais dos mundos que (dizem) não existem mais, do céu que já caiu.

Still do videoclipe B.I.A. – EX@ feat. Mun Há e Deize Tigrona, 2020

4. Comentamos um pouco, também, sobre a ideia de hackeamento dentro do contexto da produção artística nos meios virtuais. Apropriação é uma palavra que também surge nesse momento. Como você vê esse cenário e como esses termos chegam para você no seu trabalho?

A problemática da dominação algorítmica é uma questão que reflete os sistemas nos quais estamos inserides durante toda a modernidade. O moderno, o colonial e a escravidão como sistema econômico são sinônimos, e estruturas que habitam todos esses códigos, digitais ou não, invisíveis, virtuais, nas redes e fora delas. Hackear os códigos é uma metáfora e uma necessidade. tento deslizar eixos, confundir linguagens, desaprender muita coisa. Por isso nos fortalecemos sabendo que não fazemos nada sozinhes, essa tem sido uma prática constante.

Still do videoclipe B.I.A. – EX@ feat. Mun Há e Deize Tigrona, 2020 / Still do videoclipe M.I.A. – XXXO, 2010

5. Pensando em todo o polo comercial e artístico que gira em torno do sudeste, como você enxerga a influência de Recife, ou do nordeste, no seu trabalho?

É difícil pensar como não seria essa influência tendo em vista que é onde vivo, o que vejo, o que respiro. Pra mim é muito importante toda a cena cultural de Pernambuco. A cultura popular, a espiritualidade são definitivamente o que me mantém viva não só de corpo mas de sonhos. Sou constantemente associada às máquinas por conta do meu trabalho cujas ferramentas são digitais. Mas tento sempre dizer que o digital é humano, territorial, geográfico, ético ou não, e tudo o mais de humano uma vez que é este elemento que está por trás das máquinas e códigos, e não o inverso. Acredito que a cultura brincante, tanto daqui quanto do Ceará, de onde vem minha família e parentes brincantes (hoje já falecidos), está presente no meu fazer até onde não reconheço. Para além da cultura popular, a cultura musical contemporânea do brega, brega funk, tecnobrega, tecnomelody é a trilha sonora e ambiente que move os corpos aqui e consequentemente o meu também. A dança, o corpo e a música sempre me rodearam uma vez que minha prática como VJ nesses ambientes é o ponto onde desenvolvi quase toda a vivência visual que é refletida nos outros trabalhos também.

6. Talvez principalmente, como você se enxerga enquanto um corpo dissidente no meio artístico nacional?

Eu não enxergo. Meu corpo está em vários lugares e o pouco de inserção que ele tem ainda é muito pouco. Meu corpo não é só meu. quantos Siarás, Potyguaras, Parás, Amazonas cabem numa galeria, museu ou festival de música? pessoas que migram para o sudeste e ocupam espaços não diminuem o conforto que é inserir apenas quem está mais perto. Nesse sentido, eu ainda não enxergo quase ninguém.

7. Finalmente finalizando: se você pudesse saltar no tempo e encontrar com você mesma daqui cinco anos, como você imagina essa outra versão de si própria e o que você acha que seu eu do futuro diria para você mesma? 

Eu tento saltar pra lá e pra cá o tempo todo dentro desse tempo espiralado que vivo. Ontem, hoje e amanhã são menos distantes do que imaginamos. Eu digo que acredito nos meus sonhos, sei que eles não são só meus, e tento fazer com que quem está perto ou longe de mim também acredite. Sonho é conexão de tempos. É uma tecnologia. É uma ferramenta política.

Still do videoclipe B.I.A. – EX@ feat. Mun Há e Deize Tigrona, 2020 / Still do videoclipe M.I.A. – XXXO, 2010

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