PAULO NIMER PJOTA

Cenas de casa _ Paulo Nimer Pjota

Cenas de casa era o título que designava uma sessão do livro sobre natureza morta que Paulo Nimer Pjota estudava. A página estava marcada, as referências seguiam na sequência da publicação: composições com frutas, porcelanas, instrumentos musicais, cachimbos, caças, utensílios de cozinha, que iam sendo apresentadas junto ao caimento e à textura dos tecidos, os jogos de luz e sombra, os planos cruzados de mesas e superfícies que funcionam como base e fundo das cenas. Gênero clássico da pintura, não surpreende que o artista se debruçasse sobre seus fundamentos para pensar a série que ora exibe como parte do programa Caixa de Pandora, em que artistas contemporâneos desenvolvem projetos em diálogo com a coleção Ivani e Jorge Yunes. O que faz essa referência à natureza morta ressaltar nas obras apresentadas por Pjota é que os ecos da história da arte estão misturados a outras incontáveis menções, num vocabulário que perpassa desenhos infantis, anúncios de publicidade, logomarcas, tipografia popular, inscrições urbanas.

Para produzir as dez pinturas e a instalação que compõem sua mostra, o artista deambulou livremente pelas diversas salas e reservas que acolhem a vastíssima coleção de coleções dos Yunes. Dali selecionou um conjunto de vasos que foram usados como elementos centrais para a composição de cada obra. As origens diversas dos objetos e as datações que variam na medida dos séculos importam apenas como referência lateral, indicadas no subtítulo das pinturas e denotadas pela frouxidão de categorias tais como “oriente”, ou “regiões de conflito”. A despeito da representação imagética acurada, as distintas escalas entre os objetos perdem-se na reprodução, o que faz com que um diminuto vaso de vidro colorido seja posto em cena como um receptáculo de flores, por exemplo. Segundo o artista, o que liga todas essas peças, apesar das diferenças entre elas, é sua capacidade de serem confundidas com objetos ordinários, como os que enchem os containers que chegam diariamente em todas as partes do mundo e inundam os mercados populares com seus selos made in China. Se cada um dos vasos escolhidos mantém sua importância de objeto pela capacidade de sintetizarem poder e valor, estes são desafiados por um gesto artístico que nega sua autoridade.

Deslocadas das paredes e apoiadas em estruturas autoportantes, as pinturas reivindicam sua autonomia do contexto, ainda que comentem diretamente seu entorno. Tapetes e vasos são escolhidos por Pjota para dialogarem com as cenas retratadas nas obras. Às vezes de maneira mimética, outras vezes emulando sutis diferenças, os objetos que se postam para além da bidimensionalidade das telas complexificam as escolhas formais e produzem miradas que se multiplicam a partir da disposição do visitante de criar suas próprias composições com os planos arquitetônicos. A série de pinturas Smiles, ao inserir em cada tela um sorriso de iconografias pops e criar com isso faces bem-humoradas, sublinha a presença dos trabalhos como personagens anárquicos que fagocitam suas referências na forma de crítica ou ironia sem, no entanto, deixar de homenageá-las.

Ao intitular a mostra de Cenas de casa, Pjota faz questionar, ainda, de que casa estamos tratando e para quem. Há na sua produção uma tensão recorrente entre os ambientes privados e os espaços públicos, algo que se declara também na desierarquização absoluta entre ícones da suposta “alta cultura” e manifestações “populares”, ou na fusão entre a instância aurática da entidade artística erudita e a qualidade de mera diluição do produto para consumo de massa. A rua é, na sua linguagem, o lugar onde as idiossincrasias da diferença tomam lugar. De lá vêm as palavras de ordem que, num gesto de insubordinação e urgência inscrevem-se nos muros, nas portas, nas faixas, e que são transportadas para suas obras. É também desse espaço coletivo que surgem elementos quase sempre despercebidos por seu caráter ordinário, como os adesivos dispostos em cartelas em bancas de jornal, o barrado de um sinal gráfico, a ilustração do pano de prato que é vendido nos sinais de trânsito, o código da pichação, as várias camadas de tinta que limpam as fachadas, escondem histórias, e buscam um ordenamento que quase sempre ressoa à higienização.

No jardim, esculturas foram deslocadas para o centro do gramado e parecem dialogar com vasos de cactos cuja aspereza visual contrasta com o paisagismo da casa. Como espécies invasoras, as plantas trazem em seus caules gravações de nomes, frases e grafismos que marcam a não-conformidade com os códigos sociais das linguagens artísticas hegemônicas. A depender da perspectiva, esses universos de referências podem parecer imiscíveis em seus antagonismos estruturais, ou comutáveis pelas diferenças que fundam toda e qualquer existência baseada na alteridade.

Júlia Rebouças

agosto de 2019

Júlia Rebouças (Aracaju, Brasil, 1984) é curadora, pesquisadora e crítica de arte. É curadora do 36o Panorama da Arte Brasileira MAM-SP, Sertão, agosto de 2019.  É curadora da mostra Entrevendo, antologia história e poética da obra de Cildo Meireles no Sesc Pompeia, com Diego Matos, setembro de 2019. Foi co-curadora da 32a Bienal de São Paulo, Incerteza Viva (2016). De 2007 a 2015, trabalhou na curadoria do Instituto Inhotim, Minas Gerais. Colaborou com a Associação Cultural Videobrasil, integrando a comissão curadora dos 18º e 19º Festivais Internacionais de Arte Contemporânea SESC_Videobrasil, em São Paulo. Foi curadora adjunta da 9ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, em 2013. Realiza diversos projetos curatoriais independentes, dentre os quais destacamos a exposição Entrementes, da artista Valeska Soares, na Estação Pinacoteca, São Paulo, de agosto a outubro de 2018, a mostra MitoMotim, no Galpão VB, São Paulo, de abril a julho de 2018. É doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal de Minas Gerais (2017).