BARRÃO

Até agora bem poucas pessoas sabiam que em São Paulo, no cruzamento
de duas ruas movimentadas, abrigada num casarão cercado por muros altos, havia uma coleção surpreendente pela vastidão e diversidade. A coleção Ivani e Jorge Yunes faz lembrar o “Museu de tudo”, o livro em que João Cabral de Melo Neto abandonou seu gosto por estruturas coerentes e monolíticas para dar vazão ao seu apego pelo diverso. São 5 séculos de pinturas, e mais livros, marfins, tapeçarias, gallets, porcelanas, jóias, conjuntos soberbos de peças asiáticas e africanas, da forte presença do nosso barroco etc etc.

Com a finalidade de demonstrar a força do passado no nosso presente, Camila Yunes Guarita criou o Projeto Caixa de Pandora, destinado a convidar artistas contemporâneos, colocando suas peças em alguns dos ambientes repletos de antiguidade, como que a fazê-las despertar de seus sonos respeitáveis.

O primeiro convidado não podia ser mais adequado: Jorge Velloso Borges Leão Teixeira, o Barrão.

Uma das principais figuras dos anos 80, o carioca Barrão é um dos
principais interpretes da nossa cultura. Ao contrário dos artistas modernos que propunham um mundo fundado numa ordem coerente, Barrão, que também é músico, sabe que em tempos transnacionais, o que há, cada vez mais, é bricolagem, pastiche, sampleamento, copy/paste, plágio e outros procedimentos que o mundo acadêmico chama de intertextualidade. Que o que chamamos de cultura é um todo fragmentado constituído por cacos de civilização: hábitos, objetos, noções, palavras… que se vão chegando, tomando conta de nossas casas, nossas roupas, nossas comidas, nas playlist onde combinamos Jay Z com Jackson do Pandeiro, no churrasquinho que é
vendido na rua, logo ao lado do restaurante responsável pela confecção dos mais finos sushis.

Os empilhamentos de Barrão, as esculturas feitas de uma proliferação de fragmentos organizados e soldados de objetos com distintas origens – peças vagamentes surreais, remotamente pop, em qualquer caso absurdas -, faz desse artista um dos mais argutos comentaristas da vida contemporânea, onde forças oblíquas, desencontradas, vão se intercambiando, puxando-nos de um lado para outro. E nós, fascinados, como imãs que somos, como previu Oswald de Andrade reagimos canibalisticamente: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”. Parafraseando o outro Andrade, o Mario, pai de Macunaíma, “Salve Barrão, herói da nossa gente.

Agnaldo Farias, curador.