KURA ENTREVISTA / NACIONAL TROVOA

Por Thais Teotonio

Mônica Ventura, Incorpóreo (profusāo), 2018. Escultura: 40 × 20 cm

1. O que é e como surgiu o coletivo?


O Levante Nacional TROVOA é um coletivo de artistas visuais e curadoras racializadas pertencentes das cinco regiões brasileiras (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul). Até o momento o levante mapeou onze Estados, sendo eles Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Maranhão, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Fundado em 2017 na cidade do Rio de Janeiro, o Levante Nacional TROVOA nasce a partir das preocupações iniciais de quatro jovens mulheres e reivindica urgência na discussão sobre o sistema de arte no Brasil com especial atenção à visibilidade e inserção das artistas racializadas cis e trans nesse circuito. Ambicionamos enquanto coletivo evidenciar nossas produções não hegemônicas que derivam de intersecções raciais passando por indígenas, negras e asiáticas. 

2. O que mudou desde o nascimento do coletivo até os dias de hoje? 

Somos mulheres artistas, curadoras e arte-educadoras não-brancas – incluindo mulheres asiáticas e indígenas, assim como não binarie, transexuais e travestis – que interagem conjuntamente em rede. Em todo o Brasil, essas mulheres começaram a propor rodas de conversa, palestras e exposições com artistas mulheres racializadas, que não se enquadram no espectro da branquitude. Hoje, somos aproximadamente 180 participantes e 40 articuladoras ativas na rede, que propõem atividades em suas comunidades de acordo com o contexto e as necessidades de cada cidade. Já que o circuito hegemônico de arte não compota nossos corpos e produções, a criação de uma rede é uma marca, a Trovoa, que funciona como um replicante podendo estar presente em diferentes lugares ao mesmo tempo. Isso nos possibilita a oportunidade de contar nossas narrativas gerando visibilidade para o coletivo. 

3. Como vocês enxergam o futuro do coletivo? 

Nacional Trovoa vem conquistando espaço no circuito de arte, em especial em São Paulo, onde as galerias e instituições têm prestado atenção em nosso movimento. Devemos cada vez mais olhar para o coletivo, pois torna-se de extrema importância pensar nossos processos e trabalhos, sobretudo nossas subjetividades enquanto artistas e curadoras racializadas. Nosso plano é seguir em negociação constante com o circuito hegemônico de arte. 

4. Para vocês, qual a importância da descentralização da arte?

Contamos hoje com cerca de 40 articuladoras residentes em cinco regiões do país. Entre artistas, curadoras, arte-educadoras com diferentes interesses, atuamos através da autonomia local. Cada grupo regional ou articuladora lê as necessidades da sua cidade para assim traçar estratégias de atuação. Atuamos em cenas descentralizadas com intuito de diminuir as fronteiras regionais, revelando discursos presentes nas bordas. Trovoa organiza ações de fruição artística visando trazer para o contexto nacional artístico a difusão de conteúdos oriundos de diferentes regiões do Brasil, promovendo e estimulando a descentralização da programação artístico-cultural concentrada majoritariamente no eixo sul-sudeste do país.

5. Como é a vivência de um coletivo formado por mulheres racializadas cis e trans de diversas regiões do país? Como essa ligação acontece?

Estamos ativamente conectadas por meio de plataformas digitais online, mesmo apesar de muitas regiões terem acesso limitado à internet e à conexão de alta velocidade, o ambiente virtual é o mais descentralizado e plural, aberto à troca de opiniões e informações, que ocorrem mais rápido do que em outros espaços. 

6. Esse ano diversas artistas do coletivo estão com trabalhos na SP-ARTE, como vocês enxergam a relação do coletivo com a feira?

Algumas das integrantes do coletivo já são parceiras da feira há um tempo como colaboradoras no editorial, a exemplo temos a Carolina Laureano, Aline Motta e nas visitas guiadas a Bianca Leite. O convite foi feito pela Marina Dias Teixeira, responsável pelo institucional da feira, e única mulher negra na equipe da SP-Arte. Ela acompanha a trajetória do coletivo Trovoa há um tempo, e vem contribuindo para que cada vez mais a feira faça convites para artistas, curadores, arte educadores e pesquisadores negras e negros.

7. Para vocês, quais são as dificuldades de inserção no mercado de arte? E qual a importância de estar presente nele? 

A Feira é um evento internacional e conta com a participação de inúmeros curadores, diretores de importantes instituições, colecionadores de diversos países. Atraindo também um público não especializado, que poderá conhecer um recorte da produção do Levante Nacional Trovoa. A visibilidade para ambos os públicos é extremamente importante para as artistas do coletivo, que em sua maioria ainda estão fora do circuito de arte. A participação do coletivo traz uma perspectiva nem sempre contemplada em eventos comerciais como feiras de arte, enriquecendo assim o SP-Arte Viewing Room em termos de projetos participantes e programação paralela proposta. 

8. Quais outros coletivos ou artistes são referência para vocês? 

Somos um coletivo com muitas participantes e essa pergunta não pode ser respondida de forma objetiva, já que cada uma de nós tem uma formação e uma trajetória. Num modo geral, estamos conectadas e olhando para as produções artísticas afro diaspóricas, ameríndias e dissidentes.

9. Se vocês pudessem escolher um espaço (físico ou não) para uma intervenção do coletivo, qual espaço seria? 

Acreditamos que nossos corpos, por se tratarem de mulheres racializadas e mulheres trans, por vezes são interditados a adentrar espaços institucionais. Mesmo que pudéssemos fazer aqui um exercício de imaginação, acredito que essa escolha tem mais a ver com uma negociação séria com instituições que tenham interesse em abrir um canal de diálogo onde possamos falar sobre descentralização, remuneração e condições seguras para executar um trabalho primoroso.

10. Se possível, gostaria que cada artista(e) falasse um pouco sobre o trabalho que está na feira.

TT: Fale um pouco sobre como você vê a relação da memória com o seu trabalho, como ela aparece? 

ALINE BESOURO /

Aline Besouro, Constância, 2020. Técnica mista

Desde pequena me interessa inscrever, escrever e narrar histórias. Quando criança tinha o hábito de recortar o jornal e produzir novos jornais a partir das imagens e palavras. A relação que estabeleço com a memória em meu trabalho vem em parte, da minha própria memória, principalmente na infância e início da adolescência, essas referências se tornaram parte do meu interesse com o passar do tempo, se desdobrando em matéria. Um desses exemplos diz sobre minha relação com a costura, iniciada aos cinco anos com a vó Elza, assim como meu desenvolvimento no desenho, desde nova sempre fui estimulada a desenhar, a partir do desenho geométrico, por conta do interesse comum entre meu pai e minha mãe e o amor que têm por matemática, desenho e arte. Ao adentrar ao estudo artístico me identifiquei imediatamente com os processos da performance como caminho para meu desenvolvimento artístico. O primeiro trabalho que fiz onde me reconhecia enquanto artista envolvia a construção de um útero de tecido maleável e de veludo vermelho onde me mantinha dentro, me gestando até o momento que nascia. Essa auto iniciação se relacionava diretamente com a memória do meu nascimento, o parto que me trouxe ao mundo, numa compreensão que ali começava a elaborar minha função nesse mundo. 

TT: Fale um pouco da relação da fotografia com a performance e/ou sobre seu projeto Fotografia Ritual. 

BÁRBARA MILANO /

Bárbara Milano, Fotografia Ritual, Huni-Kuin “Circuito dos Pajés”, 2017. NIBU

Minha produção fotográfica acontece a partir da relação com a performatividade. O registro de trabalhos partindo da arte relacional, que realizei no início de minha produção, me levou a pensar a fotografia de modo que esta pudesse me grafar através da imagem do outro. Venho desde então costurando as linguagens. 

Em Fotografia Ritual busco um caminho somando essas vivências… Chegando a reflexão da fotografia em si como um rito, no que se refere a gestualidade de fotografar. Sendo neste caso, a relação com a ideia de rito (em si performática), intrínseca, já que se refere a fotografia realizada em situações rituais para consagração da ayahuasca, junto aos povos originários. A pesquisa que aprofundo com este projeto de mestrado se inicia em 2017, com o povo Huni Kuin (AC) junto a rede NIBU, grupo de estudos das ” plantas sagradas da floresta”, que atua também no intercâmbio técnico, tecnológico e cultural junto aos povos.

Em 2020 apresento registros do trabalho na exposição Zonas de Compensação, que terá sua primeira edição online, e, no seminário Emergências, dos alunos da PPG em Artes da UNESP.

TT: Fale sobre a repetição no seu trabalho e/ou comente sobre a relação dos materiais usados com a temática.

BIANCA LEITE /

Bianca Leite, Sem título, da série “Vibrações”, 2020
Pintura: 24 × 32 cm

A repetição vem do desejo de criar formas orgânicas, dando maior vazão à imprevisibilidade na pintura abstrata. Comecei recentemente a trabalhar com tinta aquarela, que é uma tinta específica para papéis de alta gramatura. O movimento que faço quando estou produzindo me lembra as barbatanas dos peixes se movendo no mar, um eterno vai e vem. Em boa parte das aquarelas eu insiro algumas manchas com tinta nanquim — essas manchas são esguichos feito com seringa e agulha, objeto muito utilizado em hospitais. Construo com a seringa linhas finas com pontos coagulantes. As manchas de nanquim sobre a aquarela crescem e se espalham criando espaços limitados, em formas que evocam grandes crateras, espaços terrosos visto através do Google Earth, ou os lugares mais profundos dos oceanos. 

TT: Fale um pouco sobre a relação do corpo no seu trabalho, podendo entrar em questões como corpo-subjetivo e corpo-social.

CARLA SANTANA /

Carla Santana, Sem título, da série “Desdobrando fardos”, 2019. Fotografia

No meu trabalho, a relação com o corpo é uma estrutura primordial. Gosto sempre de falar que nós pensamos com o corpo todo. Essa máxima simboliza pra mim a negação da dualidade ocidental onde corpo e mente se desvinculam. Entendo a minha corporeidade como uma ferramenta intelectual expressiva, onde absorvo e deixo escorrer. Corpo é memória, linguagem, começo, meio e fim. A partir desse lugar começo a observar as frestas intrínsecas, o que vem de fora e fica, o que é meu e sai, o que está tão dentro que não consigo enxergar. Observo como a intimidade pode se desdobrar em identificação e assimilação. Passei a evidenciar como objeto analítico a linha tênue entre o corpo-social e o corpo-subjetivo, seus condicionamentos, arquétipos, traumas e vivências.

No primeiro momento sentia a necessidade de materializar dores e questões indizíveis, percebo que era um momento mais denso de buscas, perguntas e cura. Depois, entro num entendimento mais elementar e espiritual sobre o meu corpo.manifesto imaginários e sonhos através de instalações com terra, argila, água  e vidro. Atualmente, sinto a necessidade de estudar a despretensão e a observação, uma vibe meio existencialista. Tornar o meu processo mais importante que o produto final, por uma lupa sobre a “estética da existência”. Tudo isso honrando o casco que habito. 

TT: Fale um pouco sobre como o meio cibernético atua no seu trabalho e/ou as relações de ancestralidade.

CYSHIMI – VIVIANE LEE HSU /

Cyshimi | Viviane Lee Hsu, “Forever Love”, 2020
Escultura

Como artista transdisciplinar, trabalho com várias mídias questionando o limite entre elas, sendo uma prática muito fluida. Trânsito entre o digital e o manual e ambos influenciam muito um ao outro. Na minha geração, o digital é muito presente, com ele mudei a forma como trabalho, me organizo, me relaciono e principalmente ele formou muito meu repertório e minhas referências. Quando eu crio eu parto desse repertório, ou seja, o digital é sempre base e intrínseco às minhas criações. Já trabalhei com realidade aumentada, realidade virtual e colagens digitais, a presença do design nas minhas práticas é também muito influente nesse aspecto.

Como Sino Brasileira, pesquiso identidades asiáticas brasileiras enquanto indivíduos não-branques e essas identidades dissidentes me influenciam muito. Também, tento pesquisar ancestralidade de uma perspectiva decolonial e não apenas de comemoração. Atualmente venho me aprofundando em pesquisar indivíduos chineses no brasil, principalmente com o meu projeto 1212 – Sorteio de Qipao, projeto colaborativo com 12 pessoas distintas ao longo do ano, reinterpretando e contemporizando a vestimenta Qipao através de serigrafia experimental.

TT: Fale um pouco sobre a influência da ancestralidade na construção do imaginário imagético.

GABRIELA MONTEIRO /

Gabriela Monteiro, “Caminho secreto”, 2019
Pintura: 140 × 170 cm

Passamos por um processo de apagamento histórico das nossas famílias e ancestrais, com isso, não tenho acesso profundo sobre meus avós e seus antecessores. Tenho apenas a avó paterna viva e quando consigo contato com ela, tento resgatar essas memórias. Por não ter este acesso e apenas ouvir as histórias ancestrais de minha família, tento através da escuta criar esse imaginário do que foram seus trajetos e caminhos percorridos em vida e usar a pintura como plataforma representativa desses caminhos, como um mapa que recrio através do que ouço e imagino. Meus avós paternos são da Bahia e também de Alagoas, então vou pesquisando sobre os atravessamentos que tiveram, sobre as vindas a São Paulo, sobre o retorno pra Bahia. Assim como também tento me conectar com histórias antecedentes a isso como pensar o trajeto de África até o Brasil. Então basicamente meus trabalhos são sobre memórias ancestrais e mais especificamente sobre deslocamentos/ trajetos e como essas histórias vêm se repetindo na minha família e em mim ao decorrer do tempo. Quais as marcas que essas histórias possuem, como elas me marcam, como elas se repetem através de genética e vivências, e também como não são lineares. 

Minha ancestralidade e uma aproximação com minha ascendência Africana, me faz também estar bem próxima a história da arte africana, costumo pesquisar muito sobre arte africana e minhas referências são de lá.

TT: Fale um pouco sobre como você vê a tradição da pintura e como a ancestralidade atua na visão da pintura contemporânea.

HARIEL REVIGNET /

Hariel Revignet, Sem título, 2020. Pintura

A construção de narrativas a partir da imagem é um elemento poderoso de criação de imaginário coletivo, vejo a pintura assim como a fotografia e outras linguagens artísticas na disputa de contra-narrativas, possibilitando revisitar ideias coloniais ocidentais que distanciam a pintura de uma apropriação coletiva,sem hierarquia. Representação de símbolos, corpos e suas sinergias ativam a memória coletiva, no entanto as imagens podem ser feitas para gerar esquecimento ou recorte histórico, em que só uma narrativa hegemônica é reconhecida como “oficial” e “clássica”. Decolonizo minhas referências de clássico entendendo como sempre atuamos através de diversas tecnologias de representação dentro da pintura. Ancestralidade vai além do tempo-espaço linear, assim minha ancestralidade é contemporânea. Ela existiu e re-existe no agora assim como no porvir. Quando pinto mulheres afro-diaspóricas e ameríndias, o tempo é atravessado pelas ancestrais do passado e do futuro. Como minhas práticas são autobiogeográficas¹ a relação com Axétetura², pintura-vivências-performance e ritualística faz parte do meu cotidiano e das mulheres que convivem comigo. Dentro do terreiro, na comunidade, nos movimentos sociais. 

1- conceito criado pela Dr. Profa. Manoela dos Anjos Afonso Rodrigues
2- conceito criado pela Arquiteta e Urbanista Hariel Revignet.

TT: Fale um pouco sobre a relação do corpo com as vestimentas/jóias/adereços no seu trabalho.

JULIANA ARAÚJO /

Julliana Araújo, Sem título, da série “Vão”, 2018. Fotografia

Sou formada em Design e sempre escolhi me aproximar do desenvolvimento de objeto, o interessante que de início na artes-visuais foi a partir do corpo e da imaterialidade (instalação), atualmente retomo a minha ligação com pesquisa-prática voltada à tridimensionalidade; a escultura. Pensar volume como forma e linguagem centrais em meus exercícios artísticos, têm aprofundado e se feito fundamental para o meu trajeto nas artes. No Sp-Arte exibo Vão, videoarte que pensa a não presença das mulheres negras em espaços e cargos de liderança no mercado de trabalho no Brasil.

TT: Fale um pouco sobre como você enxerga a relação da fotografia com o corpo e/ou com espaço urbano.

KEILA SERRUYA SANKOFA /

Keila Serruya Sankofa, “Raiz e Patchuli”, 2020. Fotografia

Até 2017, meu processo se dava em direcionar outros corpos como representante das minhas narrativas cinematográficas, fotografias e/ou performance, mas recentemente percebi que a exclusão da possibilidade de utilizar meu corpo como estrutura narrativa, e como suporte é me negar. O auto-ódio é uma ferramenta eficaz nessa sociedade anti-vida de pessoas negras e indígenas, produzir auto-estima é revolucionário, me coloquei em um lugar de fala em primeira pessoa, minha imagem afirma que esse corpo que habito é protagonista da minha história. Essa coragem para narrar com minha imagem é recente, e foi através dessa percepção e possibilidade de me reconstruir e me colocar como auto referencial que fez compreender outras potências de minha produção. Minha escola base é a rua, local prioritário na hora de propor a exposição de uma obra ou processo. 

Importante reforçar que nunca realizei uma exposição individual em galeria, e pelo caminhar de minhas urgências, ela não poderá acontecer nos próximos anos, a RUA e o diálogo com as pessoas parecidas comigo é uma forma externar  minhas inquietudes, essas que me queimam o peito como fogo. Há atravessamentos de minha existência que negam minha experiência, vivência e meu lugar de produtora de conhecimento, e por isso, acredito que ocupando a cidade posso dialogar com todos os tipos de pessoas, não apenas com artistas, curadores ou instituições.

TT: Fale um pouco sobre como você percebe a inserção de objetos e palavras na fotografia.

MITSY QUEIROZ /

Mitsy Queiroz, Sem título, 2019. Fotografia

Meu processo criativo pode escorrer pelas bordas do caderno e nadar contra a maré; pode revolver a terra em busca de pequenas lembranças do futuro, tanto quanto recolher do cotidiano seus amuletos. Na ponta da minha língua protesta uma fotografia que saúda o erro; apaixonado pela imagem técnica e seus processamentos, abandono as convenções e considero a companhia para uma despretensiosa travessia no tempo. Sabendo que hoje jogarei uma pedra para acertar as contas com o meu passado que continua vivo, pendurado num cacho por onde flui o tempo sem início ou fim. Falo em tempo porque entendo a fotografia como um portal desses atravessamentos, já que o tempo é memória, tanto quanto consciência e produção de conhecimento.

Estou constantemente fazendo alusões aos códigos da imagem e suas programações de fábrica, jogando com essas lógicas e buscando a subversão de suas normas, seja em processamentos analógico ou digitais, mas refletindo continuamente as especificidades desses meios e suas implicações na construção de imagens que tem seu potencial ampliado através do erro. Isso porque encaro a fotografia como um corpo sensível, encarnando minhas experiências enquanto corpo trans não-binário que busca a contra regra de todas as programações que lhe fora atribuído. Onde as flexões dessa vivência, acionam um processo de criação que também protesta as tecnologias que emprega ou conduzem sua construção errante.

TT: Fale um pouco sobre a presença do objeto na simbologia e composição do seu trabalho.

MÔNICA VENTURA /

Mônica Ventura, “Lei 11.645”, 2020. Pintura: 70 × 65 cm



De um modo geral eu enquanto designer de produto tenho muito fascínio em produzir objetos. Nas minhas produções artísticas visuais muitas vezes o objeto é o resultado de uma pesquisa. Para mim é importante materializar minhas pesquisas e tento fazer isso me desvencilhando da formalidade clássica dos cânones da arte eurocêntrica. 

Tenho olhado para culturas pré coloniais (Povos do Continente Africano – Cultura Védica da Índia – Cultura Ameríndia), daí dentro dessas cosmovisões o uso de determinados objetos carrega um mar de simbologias ancestrais, e isso é o que me interessa. Faço esse exercício decolonial para traduzir materialmente uma ideia. 

TT: Fale um pouco sobre como você vê a presença da palavra em relação ao corpo no seu trabalho.

RAYLANDER MÁRTIS DOS ANJOS /

Raylander Mártis dos Anjos, Sem título, da série “Trabalhos escolares”, 2020. Outros: 59 × 42 cm

Os movimentos de cabeça, de pescoço, de ombro, de braço, de cotovelo, de antebraço, de punho, de mão e de dedos no gesto de escrever palavras nos coloca uma questão bem importante: tanto na sua forma escrita, quanto na sua forma oral, as magias que implicam a artesania da palavra, se fazem na totalidade do corpo com o fazer mágico. Em linhas gerais, quero dizer que, para existir palavra – no cafundó de onde venho – é preciso existir um corpo que se apresente no mundo. 

Nesse fazer palavras, não somente utilizamos as partes que mencionei anteriormente, mas todas as partes musculares, ósseas, os órgãos e as miudezas celulares de todo o corpo, configurando assim uma totalidade de movimento.  Uma palavra solta no nada, uma palavra sem corpo, pouco efeito teria em nossa experiência sensível. Já uma palavra arremessada, em nossa direção, como uma cusparada, vinda de um corpo em direção a outro corpo, teria efeito tátil, sonoro, gustativo e aromático. Teria efeito psicossomático.

Dizer que o corpo e a palavra se relacionam no meu fazer seria dizer pouco. Seria preciso dizer de certo ajuntamento que tenho feito entre saberes e as diversas formas de instauração desses saberes. Mas também seria preciso dizer de um movimento constante de pirueta: tanto no corpo, quanto nas manifestações mágicas desse corpo no mundo.

TT: Fale um pouco sobre o suporte no seu trabalho, nesse caso, o tecido.

SHEYLA AYO /

Sheyla Ayo, Sem título, 2018. Pintura

O tecido me remete a muita coisa , minhas avós e minha mãe tiveram muita intimidade com esse material, seja costurando, bordando que era a atividade feminina na época, o próprio algodão foi uma cultura que minha avó paterna colheu muito trabalhando nas lavouras, quando veio de Minas Gerais para o interior de SP na cidade de Garça.

Para manter muitas vezes os filhos vivia lavando as roupas das patroas e de seus maridos, usando o tecido para aquecer os filhos ou comprando pedaços ( fazenda ) para fazer um vestido para alguma festividade. O tecido cru era o tecido que minha avó comprava para fazer roupas para seus filhos, roupas prontas eram muito caras. Tecido tem trama, tem linha e dialoga com as minhas na pinturas, formas, com a minha história.

O corpo da minha pintura.

Os corpos orgânicos que procuram espaço , que lidam com a imprevisibilidade, como os corpos negros. Estamos sempre em estado de alerta, muitas vezes a linha reta para nossa passagem é interrompida, bruscamente. Então eu crio, eu rezo pintando, peço para meus ancestrais, com muita força .

Eu entro em transe, pela liberdade que ainda não veio totalmente.