CAIXA DE PANDORA / REGINA SILVEIRA

por Thais Teotonio

Vista da instalação, Regina Silveira, Mundus Admirabilis, 2007. Foto: © Everton Ballardin

T: Você é a artista participante da atual edição da Caixa de Pandora, realizada na coleção Ivani e Jorge Yunes. Como foi seu primeiro contato com o espaço e o acervo? Surgiram ideias naquele momento?

R: Já havia visitado a coleção e também visto algumas das intervenções anteriores. Tive algumas ideias desde que soube, meses antes, da intenção de me convidar para uma futura participação no projeto Caixa de Pandora, mas só comecei a planejar para valer quando o convite se efetivou e pude dar início ao verdadeiro corpo a corpo, que está sempre implicado numa intervenção do tipo site specific como esta coleção demanda. É preciso andar por ela, embrenhar-se na atmosfera daquelas salas e jardins para imaginar narrativas possíveis. Foi o que fiz durante bastante tempo, estudando e fotografando o que havia calado fundo como campo de possibilidades para algumas transformações. O resultado foi uma síntese deste processo, porque tive que escolher entre muitas ideias, mas a intenção que motivou todas elas foi sempre a de produzir estranhezas.  

Vista da instalação, Regina Silveira, Insólitas, 2020. Foto: © Everton Ballardin

T: A ideia de estranheza percorre toda sua produção, na obra Insólitas você trabalha esse deslocamento do comum de uma forma específica. Como você articula esse conceito através do material usado? Como a escolha da mesa de jantar, por exemplo, se relaciona com a ideia?

R: Provocar estranhamentos tem sido uma operação recorrente em meu percurso, desde Anamorfas (1980). Guardo com carinho o poema que me presenteou o Haroldo de Campos, que ele denominou de Banal Fantástico quando percebeu minha atitude naquelas imagens deformadas dos pequenos objetos cotidianos que constituiam o repertório para Anamorfas.

Também no projeto Inusitados me apoio em signos com significados estabelecidos  para ancorar deslocamentos que façam a diferença esperada – a qualidade nova ou alteração radical que podem resultar desta soma. A sala de jantar, cadeiras e moldura revestidas pela pelagem negra são meu statement catastrófico sobre o cotidiano de uma vida social hierarquizada, posta sob a ameaça de uma animalização imaginária, mas idealmente crescente de seu mobiliário colecionado, em ritmo de pesadelo.

Simulação de Des-Igneos, Regina Silveira, 2020.

T: A Realidade Aumentada se faz cada vez mais presente na produção artística contemporânea, o termo em si sugere uma dilatação da realidade, como se ela se tornasse maior ou mais evidente. Nas obras Paraqueima e Des Igneos essa tecnologia é usada para inserir o fogo, a queima. Conte um pouco mais sobre a escolha dos objetos e da simbologia por trás de cada um deles.

R: A Realidade Aumentada é mais um degrau na cadeia do Ilusionismo, iniciada com a pequena maquete com espelho de Brunelleschi, para perceber a ilusão do real proporcionada pela perspectiva, ainda no Pré-Renascimento. Essa cadeia de substituições do real e a criação de simulacros, que inclui das fantasmagorias do maneirismo ao pré-cinema, engloba a fotografia e grande parte das visualidades em movimento – que de momento nos alcança nesses termos de virtualidade  digital – sempre me interessou. Abordei partes deste imaginário não tanto pelo lado irônico como podia me ensinar uma boa parte da obra de Duchamp, mas pelas possibilidades de manifestar posições e conteúdos políticos em trabalhos gráficos, enxertados já naquelas sombras alongadas de políticos e de obras de arte ausentes que desenvolvi nos anos 80, passando por diversas mídias e suportes.

Agora estou nessa – de projetar obras em realidade virtual e aumentada – que considero como um cheque-mate na percepção e no entendimento do real percebido e que tenho usado para passar um entendimento de mundo substituto e deliberadamente não muito confortável.

Simulação de Paraqueima, Regina Silveira, 2020.

Paraqueima e Des-Igneos apontam para áreas de significação – da arte e da história – que quero modificar radicalmente, por faze-las pegar fogo! Virtual, claro. Simples como isto.

Vista da instalação, Regina Silveira, Mundus Admirabilis, 2007. Foto: © Everton Ballardin

T: Em Mundus Admirabilis insetos daninhos aparecem agigantados e enjaulados na estrutura transparente da piscina, o estranhamento, ali, se dá por outras vias, ainda que animalescas. O que te interessa na alteração de escala de tais bichos que frequentemente geram certa repulsa? Como esse aprisionamento se relaciona com as estruturas de poder?

R: Mundus Admirabilis foi a primeira obra da série das pragas que construí em 2007, como alusão às pragas bíblicas, para falar dos males que nos assolam na contemporaneidade. O acúmulo de insetos daninhos nasceu de uma folha de enciclopédia que copiei na Picture Collection da NY Public Library e me serviu primeiro para fazer a jaula-instalação numa enorme caixa de vidro no CCBB de Brasília, atendendo ao convite da exposição Jardins do Poder, organizada pelo MAM SP com curadoria do Felipe Chaimovich. A jaula transparente, que imaginei deslumbrante, especialmente quando fortemente iluminada, recebeu esse título justamente para aludir à magnificência de nossa vida política corrupta naquele centro de poder. A seguir, o motivo dos insetos daninhos foi usado para construir a instalação com a toalha de mesa, em linho bordado e o conjunto de porcelanas cobertas por insetos – que denominei de Rerum Naturae. Os insetos daninhos, magnificados ou não, me serviam para falar, no âmbito do discurso das pragas contemporâneas, da deterioração e contaminação de nosso cotidiano.

Mundus Admirabilis é uma obra que já viajou para diversas latitudes (Estados Unidos, Colômbia, Polônia, Arábia Saudita) onde se aderiu a arquiteturas internas e externas e sempre manteve esta aparência agigantada e surpreendente. Nunca havia estado na entrada envidraçada de uma piscina, como está na coleção Yunes. Creio que alí a obra pode ser vista como presença premonitória de nossa atual percepção dos perigo da contaminação de nosso cotidiano, mas também pode voltar a ser a jaula deslumbrante que imaginei para sua primeira instalação, naquele centro cultural em Brasília, onde os insetos daninhos não geravam repulsa, mas despertavam um sentimento de magia, provocado tão somente  por sua própria escala. 

Vista da instalação, Regina Silveira, Insólitas, 2020. Foto: © Everton Ballardin

T: O título da exposição, Inusitados, confere um tom de surpresa a todos os trabalhos, conforme percorremos o espaço a anormalidade crítica se torna mais evidente, tomando o lugar da comoção rasa. Como foi a escolha do título e como você enxerga as conexões que a palavra permite?

R: Títulos são sempre muito difíceis de dar, a obras ou exposições. Devem ser descritivos ou revelar a intenção do artista? Podem ajudar na interpretação?

Desta vez, para o título geral dessas intervenções, optei pelo efeito – o sentimento de estranheza provocado por um enxerto inesperado feito a objetos, cenas ou lugares supostamente “normais”!

Tarefa dura, porque naquela coleção não há visualidade “normal“ em parte alguma. Por isso encarreguei o efeito de acontecimento inusitado a mobiliários peludos, fogo, insetos gigantes e a uma varejeira presa por um foco de luz.